Inteligência Artificial pode escolher seu candidato?

Nos trabalhos da pós-graduação em Gestão de Mídias Digitais que estou cursando, me apresentam algumas questões que parecem ser totalmente novas. Um mundo cheio de nerds, estaria mesmo todo controlado? Na segunda página de estudos já dá pra ver que o que me pareciam novidades futuristas já acontecem no dia-a-dia, sem que eu – aliás, quase ninguém – perceba. Não é uma ficção.

O último trabalho propôs um questionamento, defendido pelo professor: Se fosse possível deixar que a Inteligência Artificial (IA), baseada em seu perfil/comportamento nos últimos anos, decidisse em quem você votará nas próximas eleições, você aceitaria usar Inteligência Artificial para escolher seu candidato ou continuaria fazendo como é hoje, decidindo baseado nas suas percepções puramente humanas?”.

O artigo

São grandes as chances de que a escolha de candidatos baseada na minha percepção seja muito próxima da orientação de IA gerada por dados coletados sobre mim.  Como já aprendemos, dados aos montes, são montes de dados, e não servem para nada se não são analisados.

Escrevi “muito próxima”, porque racional e emocionalmente ainda não tive uma definição ou pude analisar o quadro amplo que envolve essas escolhas. Fatos novos podem mudar tudo. Isso é, aliás, um dos artifícios das campanhas.

Na análise do big data, esse envolvimento espiritual e corporal, entretanto, não vai ser levado em conta. Ele vai perceber que eu comprei alguns livros sobre neo-liberalismo e acessei mais notícias de jornais americanos do que do inglês The Guardian. Talvez cruze com minha formação acadêmica e, se levar em conta minha profissão talvez entenda que fiz tudo a trabalho. Ou não – se souber a revista semanal que comprei, meu perfil começa a me preocupar.

Digo “se” por retórica, porque o big data sabe. É baseado em variedade de informações, além de velocidade e volume. Não somos capazes de questioná-lo. Só podemos questionar a nós mesmos.

Dados formatando padrões

Nem sempre repetir padrões de comportamento é encarado como algo positivo. Às vezes se define isso com o prefixo “serial”. Mas, que fique claro, me refiro ao comportamento. No mundo objetivo dos negócios podem gerar boas análises. Podemos até incluir trabalhos científicos. Chris Anderson, então editor da revista Wired e autor do clássico The Long Tail, afirmou em um artigo que o mero volume de dados eliminaria a necessidade de teoria e até de método científico (https://www.wired.com/2008/06/pb-theory/). Tudo se definiria e avançaria alimentando um computador. E os exemplos apresentados nesse artigo de 2008 são contundentes, com casos de desenvolvimento científico baseado em dados.

Mas, evidentemente, Anderson não colheu apenas seguidores em sua teoria.

Mark Graham, pesquisador de Oxford Internet Institute, contestou as ideias primeiramente concordando que não se pode ignorar o potencial e poder do big data, mas contrariando: “o material informativo não processado para projetos de big data geralmente é derivado de grandes plataformas geradas por usuários ou de mídias sociais (por exemplo, Twitter ou Wikipedia). No entanto, em todos esses casos, estamos necessariamente confiando apenas em informações geradas por uma base de usuários extremamente tendenciosa ou distorcida”. (https://www.theguardian.com/news/datablog/2012/mar/09/big-data-theory).

Graham se posiciona próximo a Nate Silver (enfim, um nerd), autor do livro O Sinal e o Ruído, entretanto mais reconhecido pelo blog FiveThirdyEight (https://fivethirtyeight.com/). Foi o único a prever a vitória dos democratas nas eleições de Barack Obama.

Silver, que se notabilizou também pelos acertos, baseados em estatísticas, em jogos de beisebol, escreveu: “Previsões baseadas em dados podem se concretizar – e podem falhar. É quando negamos nosso papel no processo que se elevam as chances de fracasso. Antes de exigir mais de nossos dados, precisamos exigir mais de nós mesmos”.

Mania Americana

Americanos adoram estatísticas. Seu maior estrategista geo-político, Henry Kissinger, foi um grande fã de futebol basicamente porque o considerava o esporte mais imprevisível do mundo. Um refugo na expertise americana de coleta de dados e sua utilização para predomínio comercial e político. Antes do big data, isso dava mais trabalho.

E  voltando à escolha de meus candidatos, talvez um dia o big data entenda de desejos e utopias. É uma fortíssima ferramenta geradora de material para análise e com grandes utilidades. Inclusive para pescar fake news.