Manguinhos na ditadura – os alvos de uma grande injustiça

No dia 6 de abril de 1970 foi publicada no Diário Oficial a aposentadoria compulsória de 10 cientistas brasileiros do quadro do Instituto Oswaldo Cruz, baseadas no artigo 4º do AI 5, cassando seus direitos políticos por 10 anos. O documento, assinado pelo presidente Médici e por todos seus ministros – incluindo Ernesto Geisel e Antônio Delfim Netto – selou o que ficou conhecido historicamente como “O massacre de Manguinhos”.

Os 10 cientistas cassados pela ditadura

Na verdade, no dia 2 de abril havia sido publicada uma lista com o nome de 8 cientistas, todos eles pesquisadores renomados e reconhecidos até mesmo por autoridades do governo militar. Nesse dia Arcelina Mochel Goto soube do que acontecera, leu os nomes da lista (*abaixo) e perguntou sobre seu marido: – “O Goto não foi incluído?! Que vergonha”.

Mas quatro dias depois, Masao Goto e Domingos Arthur Machado Filho foram adicionados pelos mesmos motivos que seu colegas. Melhor assim para Arcelina, uma feminista que havia sido eleita vereadora pelo PCB no Distrito Federal em 1947. Para o país, foi a interrupção de anos de pesquisa pura – incluindo as de doenças tropicais, como dengue – e da formação acadêmica científica de muitos estudantes. Bem, foi muito mais do que isso porque é impossível mensurar o que significa para um país cortar talentos que trabalham por conhecimento e valores humanistas.

Nenhum dos cassados poderia trabalhar ou colaborar com qualquer instituição ligada ao governo: universidades, institutos, fundações, nenhum órgão público. A alternativa foi mudar de atividade ou de país. O desmonte atingiu até profissionais que não tiveram seus direitos cassados porque foram transferidos e interromperam suas pesquisas. É a história contada por um dos cientistas da lista, Herman Lent, no seu livro O Massacre de Manguinhos.

Lent descreve os fatos desde o golpe militar, quando logo foram instaurados inquéritos no Instituto com a desculpa de serem investigações contra corrupção e subversão, relembrando o cenário de quando o novo diretor foi nomeado, Francisco de Paula Rocha Lagoa – a quem Lent desqualifica como médico e pesquisador em diversas passagens do livro. A missão de Rocha Lagoa foi apresentada claramente no dia da posse, pelas palavras do então ministro da saúde, Raymundo de Britto: – “As ideias exóticas que em Manguinhos foram infiltradas serão banidas definitivamente… Manguinhos de amanhã será uma colmeia de trabalho e não o que queriam alguns: um foco de ideias subversivas”. Era abril de 1964.

Como se sabe, os primeiros alvos de regimes autoritários são a ciência, a educação e a cultura. Não é coincidência. Para o governo, os cientistas eram comunistas, que queriam condições de trabalho e a criação do Ministério da Ciência e Tecnologia. Depois de anos de perseguição dentro do Instituto Oswaldo Cruz, Rocha Lagoa tornou-se ministro e o AI-5 estava em vigor. Concretizou-se  o que já havia sido preparado por um técnico, da área médica, do quadro de pesquisadores. Bem ao jeito que hoje se acredita ser o perfil de quem possa gerir bem uma instituição.

VAI PASSAR

Castelo de Manguinhos. foto: Fiocruz

Masao Goto foi clinicar no seu consultório. Fabricava vacinas imunoestimulantes. A matéria-prima de suas culturas vinha das poeiras que recolhia com o pessoal da limpeza do Cine Odeon, na Cinelândia. Passaram anos sem saberem dele até que Sérgio Arouca assumiu a presidência da FIOCRUZ e promoveu, em 1986, a reintegração de todos os 10 cassados. Depois de semanas de repercussão e homenagens, uma cerimônia concorrida, em frente ao castelo cheio de estilos que é Manguinhos, reuniu Ulysses Guimarães, Darcy Ribeiro, Augusto Boal, Chico Buarque e um monte de outros artistas e políticos “comunistas” que lutaram contra a ditadura.

Goto achava que tudo tinha sido “uma grande injustiça”. Se definiu à revista Vida Médica como um homem comum, voltado para seu trabalho. E realmente era muito na dele, quase melancólico. Mas a reintegração o satisfazia, de alguma forma. Não sabia o que ia fazer mas poderia desenvolver um bom trabalho, afinal, tinha apenas 67 anos.

Numa coincidência significativa, menos de 1 mês depois de ser reintegrado onde trabalhou por quase 30 anos e saiu por uma grande injustiça, Masao Goto sofreu um ataque cardíaco. Morreu dormindo em seu apartamento nas Laranjeiras. Tinha 67 anos e depois de tudo, achou que já estava bom.

* Todos os cientistas cassados:
Haity Moussatché, Herman Lent, Moacyr Vaz de Andrade,
Augusto Cid de Mello Perissé, Hugo de Souza Lopes,
Sebastião José de Oliveira, Fernando Braga Ubatuba,
Tito Arcoverde Cavalcanti de Albuquerque, Masao Goto e
Domingos Arthur Machado Filho

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