O Retrato de Sérgio Rodrigues

O Retrato de Sérgio Rodrigues

Sérgio Rodrigues era um dos maiores designers brasileiros. Suas criações estão em evidência desde os anos 50 e fizeram parte significativa nos trabalhos de Lúcio Costa e Niemeyer na construção de Brasília. A sua Poltrona Mole, da década de 1970, faz parte do acervo do MoMA.

Esse meu conhecimento parecia ser o suficiente para bater à porta de seu estúdio, em Botafogo, para uma sessão de fotos. Um ambiente cheio de móveis e luminárias, meio empilhadas, embaladas. A última foto que eu queria fazer era com a tal poltrona premiada.

Encontrei uma pessoa que faz parte da história da arte no Brasil. Um senhor simpático, atencioso, generoso no trato. Tomamos um cafezinho, escolhemos um canto, organizamos o espaço. Fotografar uma figura como Sérgio Rodrigues é um privilégio e isso deveria ser reconhecido.

Enquanto a gente conversava durante a sessão, falamos de times de futebol e disse algo – provavelmente disparado pelo nome do bairro – como ele ter um jeito clássico, elegante, de botafoguense. Ele deu um risinho e disse: “Não sou botafoguense, não. Sou flamenguista. No futebol puxei ao meu tio Mário, o Mário Filho”.

“O Mário Filho”. Bem, O Mário Filho que conheço dá nome a um estádio, que não é qualquer estádio mas sim conhecido no mundo todo como Maracanã; e esse Mário, sei que é irmão do Nélson, o Nélson Rodrigues, escritor, dramaturgo, que não é só um dramaturgo, mas o maior que tivemos no país. E eles tinham um irmão, desenhista…

Desde que soube do parentesco entre Mário Filho e Nélson Rodrigues – pelos meus 20 anos – ficava imaginando como era interessante, cada um a seu modo, ter importância na vida do país. Mais ainda considerando o Rio de Janeiro, onde eu morava. Seu irmão, Roberto, pai de Sérgio, com certeza teria a mesma grandeza, não fosse a tragédia que marcou a vida de todos da família.

Mário Rodrigues, o pai, fundou um jornal no final da década de 1920, chamado Crítica. Mário Filho já era conhecido jornalista e Nélson, um foca. Aos 23 anos Roberto era também reconhecido como desenhista e trabalhava no jornal. Na ausência do pai, dono e redator-chefe, Roberto atendeu à escritora Sylvia Serafim, que teve seu divórcio como manchete com afirmações que a deixaram disposta a ir à redação e lavar sua honra com sangue. Fez isso com 3 tiros de revólver. Foi assim que, dias depois, o pequeno Sérgio, 2 anos, ficou órfão.

Eu, por desinformação ou distração, não sabia desse parentesco – afinal, Sérgio Rodrigues nunca  foi alavancado por parentescos para ser reconhecido. Quando os neurônios se conectaram, projetaram um rápido filme na cena da foto e a personalidade que eu fotografava virou uma história cheia de emoção. Aquela conversa mole sobre times de futebol, de repente, era uma crônica de O Fluminense. Rodrigueana.

A foto está no meu portfólio. Mas o que nunca sai da minha cabeça, pra ser franco, foi saber que Mário Filho – e seu sobrinho, Sérgio – eram flamenguistas. Adoro contar isso.