Sabemos mais sobre você do que você imagina. E isso é antidemocrático.

Quem não estiver no marketing digital, vai realmente deixar de ganhar dinheiro. Isso vale para quem tem algo a vender e, há algum tempo, tem valido também para quem não tem onde trabalhar. Eu mesmo comecei uma pós-graduação em gestão de mídias digitais – onde encontrei alguns colegas jornalistas – para entrar num segmento que se tornou uma boia salva-vidas para quem teve seu bote adernando lentamente.

Não há novidade em haver novas profissões emergindo. Uma surpresa é ver outras tão rapidamente afundando. Está acontecendo com a fotografia profissional, de uma forma geral. Aí, talvez desse para correr em direção ao jornalismo numa redação. Por lentidão, compreensão ou confiança, não deu tempo. Ainda dá para enlaçar o primo mais rico da comunicação – o marketing – mas sem saber por quanto tempo, porque o processo de deterioração está na abertura da página de negócios do Facebook: “Com o kit de ferramentas certo, todos podem ser profissionais de marketing” . Mesmo os resultados de cursos dados por empreendedores digitais vendendo soluções profissionais a jornalistas têm sua concorrência na automação, com ferramentas como o Yoast e outras tantas de Copywriting.

Há vários cursos que atraem audiência fornecendo kits de ferramentas ou e-books. Ter o certificado Google é um doutorado. Nesse aprendizado, o marketing digital, na verdade, é um trabalho de invasão de bancos de dados. E isso é conveniente. Na maioria das vezes ultrapassa os limites da ética. Esse não é só um detalhe nas críticas sobre o caminho que estamos tomando no mundo da tecnologia, e além do grande desconforto que redes sociais causam, por exemplo, pelo que entendemos por democracia.

O colunista do jornal inglês The Guardian, John Naughton, escreve sobre isso na entrevista que publicou com a professora de Harvard, Shoshana Zuboff. Estudiosa do mundo digital desde o século passado (mais ou menos desde a década de 1980, acho), Zuboff define nossos novos tempos como a era do Capitalismo Vigilante. Seus estudos a levaram à definição de uma nova ordem econômica.

Na entrevista, Zuboff atribui a origem do Capitalismo Vigilante ao Google, que entre erros e acertos desenvolveu o sistema equivalente entre taxas de cliques e relevância de anúncios. “Os dados excedentes tornaram-se a base para novos mercados de previsão chamados publicidade direcionada” diz ela. “Ali está a origem do Capitalismo de Vigilância, em uma infusão sem precedentes e lucrativa: excedente comportamental, ciência de dados, infraestrutura material, poder computacional, sistemas algorítmicos e plataformas automatizadas… Ali, se formou a base de um novo tipo de comércio que dependia da vigilância on-line em grande escala”.

O entrevistador alerta que a discussão com a professora não diz respeito à forma como normalmente o mundo digital e a tecnologia envolvida são comentados. O que Zuboff discute “é a última fase na longa evolução do capitalismo”. Trata-se de como o controle de dados de comportamentos, sentimentos, corpos e desejos – adquiridos de forma desregulamentada e invasiva – criam dilemas definidos pelos novos capitalistas: eles, então, podem declarar o seu direito de saber, de decidir quem sabe e decidir também quem decide.

Assim como a aquisição de dados sem autorização, a evolução desse processo parece a todos muito natural. Tão natural que não é contestada.  “Entramos no século 21 marcado por essa desigualdade gritante na divisão da aprendizagem: eles sabem mais sobre nós do que sabemos sobre nós mesmos ou sobre eles. Essas novas formas de desigualdade social são inerentemente antidemocráticas”, diz a professora.

Como o artigo é longo, complexo e em inglês, é melhor você ler – quem sabe, depois, até ler o livro que a professora de Harvard está lançando sobre o assunto. Fala do mundo on-line amplamente. Nosso descuidado mundo eletrônico, que até mesmo seu “pai”, Tim Bernes-Lee, se ressente por estar tomando rumos surpreendentes. Mas, numa entrevista à BBC, Berners-Lee diz que tem um plano: “almeja colocar as coisas de volta no caminho certo, mas depende da vontade de governos e empresas para conter abusos e também da população, que precisa pressionar para que as coisas mudem”.

Não sei se podemos fazer mais do que desejar boa sorte. Esse é o mundo que temos para hoje.