Os dois donos da editora Abril

Há um mês fui contratado para fazer o retrato de um executivo. A agência de comunicação não me disse quem era e entendi que não era mesmo para dizer. Não seria a primeira vez que eu chegaria no escuro em um trabalho aparentemente sigiloso, uma notícia que não pode fugir do controle de um assessor, de um diretor. Depois de um certo tempo colaborando com revistas de negócios, a gente se prepara para qualquer sessão de fotos, sejam tranquilas, chatas, irreverentes, pacientes, tensas ou calorosas.

Nesse dia fui apresentado a Fábio Carvalho, advogado e sócio da Legion Holdings, que deve vir a ser – se trâmites legais confirmarem – o novo dono e diretor-presidente da editora Abril.

Logo fiquei sabendo que a sessão seria das mais comuns que envolvem executivos: a urgente. Não fez sentido um hazy, tripés, rádio e rebatedor. Ficou tudo dentro das bolsas. Mas, também pra quê tanta coisa? Talvez um flash fora da sapata conectado à câmera funcionasse. Foi desse jeito, aliás, que fotografei, há 30, anos o fundador do então maior grupo editorial brasileiro, que Carvalho comprou por simbólicos R$ 100 mil, Victor Civita.

Recém-chegado do Rio de Janeiro para trabalhar na Folha de S.Paulo, poucas coisas me intimidavam. Aos 26 anos todo mundo tem seu momento de abusado. Acho. Aí, lá fui eu para a gloriosa sede da Abril na marginal Tietê. Confesso, a minha ignorância não permitiu que eu percebesse a dimensão do que eu estava indo fazer, que era fotografar um dos homens mais poderosos de sua época. Nem me interessava se ele seria simpático. Eu ia pegar a F3, carregada com Tri-X, conectar um flash por cabo a ela e fazer 36 fotos dele em vários lugares da empresa.

Bem, nem saímos da sala. Mas usei 2 (dois) rolos de filme. Ele me ofereceu café, se dispôs a se movimentar, levantar, sentar, posar, sempre com um sorriso que parecia ter sido colado no seu rosto. Aí, entrou o flash numa mão, a câmera na outra, o foco com os dedinhos, e o flash subia e descia e ele percebeu que era muita arte para quem editava Cláudia e Veja. Talvez ele tenha percebido também meu evidente descontrole com relação ao resultado e, então, murmurava entre os dentes, mantendo o sorriso, algo que eu só entendi quando pedi mais uma foto, atrás da mesa: “- Eu vou acabar com você”. Ah, sim. Agora entendi.

Fabio
Fábio Carvalho

Não adiantou argumentar que eu era um jovem fotógrafo e ele o dono de uma editora. Seria covardia. Acho que isso deve ter piorado um pouco, porque ele repetiu, sem mexer os lábios risonhos: “- Eu vou acabar com você”. Achei melhor acabar o lance e ir embora porque, afinal, jornal tem hora para fechar. Nem me lembro como saí de sua sala mas revejo na memória aquele sorriso de ventríloquo repetindo…

O título da matéria na Folha era “Veja chega aos 20 anos como a maior revista do país”. De uma foto a outra a história da Abril reúne todas as categorias do drama. É um período de história do jornalismo brasileiro – e a perda de sua interlocução com a sociedade – e de como até grandes empresas podem se ferrar com estratégias e por má influência de pessoas erradas.