Take a train. Take a photo. Take Courage.

Take a train. Take a photo. Take Courage.

Essa é uma das fotos que mais presenteei amigos, que as pessoas gostam muito e das poucas que vendi. Eu adoro. Provavelmente por motivos diferentes do que a mensagem dela passa aos outros. Por exemplo, ela foi feita com uma Leica. Mas, e daí, não é mesmo?

Eu tinha uma M2. Era linda. Icônica. Outros fotógrafos viam e queriam comprar. Mas ela não tinha fotômetro. O visor era grande e eu tinha que desencapsular a lente antes de usar. Para mim, era só a câmera que meu pai usava e que eu perdi no ônibus quando me mudei pra São Paulo. Uma tragédia. Aí, juntei uma grana e comprei outra. Igual.

Com o tempo entendi sua lente, o desfoque, a definição do grão e a luminosidade. Tão pequena. Mas não tinha fotômetro. Um grande amigo, Aguinaldo Ramos, já tinha me dito que trabalhou no Jornal do Brasil por mais de um ano sem fotômetro! O JB era o jornal dos melhores fotógrafos. Cara, isso é insano.

Muito por isso, a minha M2 só conheceu filme preto e branco. O casamento perfeito. Um momento da minha vida onde seguia o manual clássico do embevecido pela fotografia e usava suas ferramentas mais nobres. Quando tirei férias, viajei; um  cara que tem Leica e fotografa em P&B só poderia ir para o exterior.

Levei-a para conhecer Londres. No primeiro final de semana peguei um trem em Grove Park (zona 5) para ir ao centro, apesar da neve que interrompeu algumas linhas. Tanto que tivemos – eu e a outra hóspede da casa onde estava – que fazer uma baldeação e trocar de trem. Estávamos lá fazendo curso de inglês e nossa conversa demorava para ser decodificada. E fomos bem até chegarmos na grandiosa estação Charing Cross. Linda. Agitada. Daqui sai uma foto, mas onde estaria minha bolsa com a Leica?

Grove Park

Um arrepio subiu a espinha lembrei de ter posto a bolsa no bagageiro do primeiro trem, imitando o que outros passageiros faziam. Eles se lembraram de pegar seus pertences quando trocamos. Eu, não. Então, eu e minha amiga alemã, retornamos ao trem e ao caminho, porque eu tinha que achar a minha Leica. Já seria a segunda perdida em um transporte e essa eu tinha comprado. Era inadmissível, além de ser simbólico. Será que eu não teria direito a ter uma Leica? Olhava pela janela e nada de estação chegar. Vi um cartaz que mesmo meu inglês de lanchonete entendeu: Take Courage. A alemã, em silêncio, tendo a melhor estreia na capital dos seus sonhos que poderia imaginar. A estação chegou e novo drama, como se diz mostarda escuro? Era realmente uma cor horrorosa.

O funcionário da estação tentava entender mas aproveitou pra tirar uma onda fazendo perguntas sem sentido. Aí, lá da cabine, vem um gorducho com quepe azul e gravata torta, balançando uma dark yellow brown mustard bag. O pessoal de Charing Cross já havia informado a eles que um turista tinha esquecido sua bolsa no trem. Eles guardaram.

Centro de Londres, aí vamos nós, de pé, nesse trem cheio, com casacos e minha bolsa no ombro. Olho os ingleses sentados, suas roupas, penteados, óculos, e vejo o outdoor passando. Tirei a câmera rapidinho, enquadrei uma passageira. Só deu pra um disparo. E não fotometrei. No fim do dia entrei num pub e vi a frase de novo. Na verdade Courage é a marca de uma cerveja.

Aí, tudo se juntou e deu um sentido à minha viagem.  A Leica, precisei vender.